modo sobrevivência
sobre o não-elaborado, o olhar mirado no outro e o recomeço
esses dias perguntei para uma amiga como ela estava. ela me respondeu que estava tudo ok. algo em mim disse que tinha mais ali, então rebati para confirmar: “ok de ok mesmo?” ou “ok de ainda não tá elaborado?”. era a segunda opção.
percebo meu corpo. estou tensa. meus olhos ardem. na garganta, sinto um choro preso. hoje é o quarto dia desde que joão deu um jeito na coluna e foi parar no hospital. é o quarto dia que ele não consegue segurar Yayá no colo, que mal consegue deitar sozinho. meu corpo doí. só consigo carregar minha filha no meu braço esquerdo. tudo queima.
meu corpo pede uma pausa. pausa essa que não consigo ofertar. quero chorar, mas não consigo espaço para as lágrimas caírem. me sinto sufocada. vejo no calendário, nesse que voltei a pendurar na parede para criar espaço para mim, sabe? hoje era o dia que tinha reservado para escrever. esse dia não existe mais. percebo que nem os dentes consegui escovar.
me sinto pior. por que? escuto uma voz me questionar: “onde está o seu olhar, thamara? onde estão seus pés?”. não estou aqui, respondo. tenho algumas amigas que são muito práticas e percebo que tenho olhado muito para elas. meio que não importa o que aconteça na vida delas, nada as para - ou parece não parar. uma parte minha queria ser assim. “a gente já foi”, a voz me relembra. verdade. eu já consegui ser assim. inúmeras vezes. o resultado? catastrófico, no meu caso. doenças no físico, alma sem anima, apatia. todas as vezes que tento me impor o ritmo que não é meu, a vida diz: esse não é o seu caminho.
Yayá puxa meu cabelo, tenta colocar o dedo na tomada, pega a ração do aladdin. dessa vez, eu grito. e o grito me rasga inteira. dói quando você não consegue ser sua melhor versão ou, uma versão aceitável de si, para as pessoas que você mais ama. como se autoregular nesse nível de exaustão? tem gente que consegue, eu ainda não aprendi. minha mente entra rio da comparação, nas margens vejo o filho de uma amiga que dorme em qualquer lugar, uma outra mãe que tá conseguindo ir para academia todo dia, outra que acorda antes de todo mundo. como que eu posso acordar antes se a gente mal dorme? outra que ama maternidade, outra que odeia. existir nessa era de fácil acesso não à informação, mas a vida dos outros não é fácil. os olhos veem, a mente teima: deveria tá fazendo isso, hein? e nos afastamos, mais uma vez, da voz que importa: a nossa.
estar consciente da sua responsabilidade, do seu impacto na vida de outra pessoa é incrível e totalmente aterrorizante. sei que merecemos mais que a minha versão sobrevivente, mas é tudo o que consigo agora…
enquanto a colocava para dormir, contei o conto de uma mulher que atravessa um vale escuro onde reencontra partes de si mesma. nesse vale ecoa choro, riso, medos e sonhos. tem espaço para errar, para recomeçar, para pausar e para criar. o choro me atravessou de madrugada, ela dormia com a cabeça no meu pescoço e o cheiro dela me acalmou. dormimos por cinco horas seguidas. um recorde.
esse é o texto mais curto que libero. não porque me faltam palavras ou coisas a dizer, mas porque são tantas não-elaboradas que é preciso espaço, silêncio para não nos atropelar (mais). não estou mais tão lá no fundo, começo a sentir a brisa que bate na superfície, mas ainda não estou aqui 100%. o corpo sente.
tem coisas que fazemos que tem uma importância danada, mas só a gente sabe... aqui, pode ser só mais um texto na sua caixa de entrada, porém a cada palavra realizada — ou seja, publicada por mim —, estou me afirmando e me firmando em meu caminho. honrar esse compromisso é honrar minha palavra, é mostrar que estou aqui por mim, que estou seguindo o chamado e confio em mim e no meu poder de criação e realização.
aproveito e te pergunto. nessa vida, que é só sua, com o que você está se comprometendo? com o que ou quem está firmando compromissos? você está sendo fiel a sua verdade? suas ações e não-ações te alinham com o que deseja? no que seus olhos estão mirando? onde seus pés estão pisando?
eu não existi por um pouco mais de uma semana.
e se não existo, não tem como escrever.
então, escrevo… e me chamo, me clamo, me anuncio
escrevo e, então, volto a existir


saímos do modo sobrevivência, ainda sentimos suas marcas mas, aos poucos, entramos no nosso ritmo. joão está melhor, amém! hoje, primeiro de julho, é feriado aqui no canadá. consegui dormir duas horas a mais, preparamos as comidas da semana. colhi flores na caminhada matinal, pendurei alecrim e lavanda perto de mim. finalizei esse texto. consigo respirar sem me doer tanto o peito. momento de recomeçar, que bom. “aqui, Thamara. volta, sinta, fique. olhos no seu caminho, pés firmes no agora”, digo em voz alta, nos chamando, enquanto sinto as águas passadas passarem e a ventania futura cessar.



Aaaaaah… até respirei mais leve ao final do texto.
Obrigada por isso, de coração.
Seus textos são maravilhosos! Tao feliz que vc voltou. é um afago no peito